Renato Moraes

TCC em Pós Graduação em Curadoria, Museologia & Colecionismo

Introdução

O presente trabalho diz respeito ao exercício por um artista que se desdobra, de um lado, em curador, promotor cultural, galerista de trabalhos de artistas brasileiros em Feira Internacional, marchand, entre outros.

Como exemplo de montagem de exposição deste artista multifuncional, pode-se ter a ocorrida em Paris, França, em 2016, denominada Salon Internacional du Carrousel du Louvre, Art Shopping (https://youtu.be/_9kWTcpvdkE) , que por sua vez, trata-se de uma Feira Internacional de Artes, com artistas de vários países e suas respectivas artes, bem como expografias próprias de seus representantes em seus estandes, dentro do salão de exposição, que no presente caso, ocorreu no espaço denominado Carrousel du Louvre, na parte inferior do complexo do museu.

No que diz respeito a qualquer uma das citadas funções, como curador/organizador/promotor cultural/representante/galerista, cumpre ressaltar que é necessário incorporar a respectiva função, despindo-se da precedente, mas nunca a esquecendo por completo.

Todas as tarefas relacionadas a uma montagem de exposição, como, primeiramente, a contratação do espaço na feira de artes, a divulgação do evento, a de pesquisa de trabalhos de artistas para compor o espaço e todos os encontros e contatos resultantes disto, a seleção das obras dos respectivos artistas, informações sobre o transporte, elaboração de maquete para melhor dispor as obras no espaço contratado, elaboração do texto de parede para apresentar os artistas, elaboração das fichas técnicas, recepção das obras no destino onde ocorreu o evento, recepção dos artistas em encontros antes do evento, tanto no Brasil, como em Paris, montagem do stand, recepção e representação dos trabalhos expostos no espaço, que se dá em idioma local ou em Inglês, desmontagem do stand, encaminhamento das obras que não ficaram em Paris, entre outros trabalhos.

Tudo isso serve para direcionar o trabalho do profissional junto aos artistas, em evento como é o caso de uma Feira Internacional, mas que nem sempre é compreendido pela maioria dos artistas.

Muitos artistas não entendem todo este trabalho e encerram, muitas vezes a conversa com um singelo argumento: “Não pago para expor”. A resposta a esta questão é simples, qual seja; Para expor, não se paga. O custo refere-se ao serviço do curador / produtor cultural / galerista que compreende tudo o que fora exposto acima.

Para que a obra do artista saia de sua casa e vire uma obra, propriamente dita, é necessário que alguém a leve, e tanto o artista não realiza, de modo geral, trabalhos beneficentes, como seu representante não trabalha por diletantismo.

Segundo o crítico e curador carioca Paulo Sergio Duarte, em prefácio ao livro Arte de expor – curadoria como expoesis, de Sonia Salcedo Del Castillo,

“[…] De fato, não é coincidência que a palavra `curador` está etimologicamente relacionada à `cura`. Realizar curadoria é curar. O processo da curadoria cura a impotência da imagem, sua impotência de se apresentar a si mesma. O trabalho de arte necessita de ajuda externa, necessita de uma exposição e de um curador para se tornar visível. […]” (DELCASTILLO, 2014,. P. 10)

Tudo o acima exposto, se traduz num “jogo de cintura” ou num trabalho de mediador, isto não no sentido das artes, mas no próprio sentido da palavra, onde há a necessidade de compreender o ponto de vista do artista, procurar explicar da melhor maneira a não inviabilizar o negócio, e tê-lo como seu cliente a assinar o respectivo contrato, para depois poder realizar todas aquelas funções.

Cumpre mencionar trecho do livro Cenário da Arquitetura da Arte, de Sonia Salcedo Del Castillo, no que diz respeito à curadoria, como segue:

“Dos elementos que compõem as exposições atuais, a curadoria é uma das mais significativas. O exercício dessa atividade tem por objetivo determinar o conteúdo da exposição, normalmente obtido por meio de agrupamentos e articulações de semelhanças ou diferenças visuais ou conceituais que as obras possam revelar. Para isso, geralmente determina-se um conteúdo ou tema, a partir do qual, funcionando como fio condutor, elabora-se o processo para obtenção de unidade na mostra.” (DELCASTILLO, 2008,. p. 299)

Um profissional com estas atribuições assume diferentes papéis que por vezes se mesclam ou se completam, mas que têm suas particularidades. No presente caso os papéis são elencados da seguinte forma; o papel do artista, do curador, do produtor e do galerista.

Cada uma das atividades de suas respectivas funções, também se alternam, devido à fase em que se encontra o processo de exposição.

No presente caso, o profissional que organizará a exposição, e também é artista, começa com a escolha de suas próprias obras e se desdobra entre as demais funções.

Ser artista e ter a visão de expositor muito auxilia outros artistas que não têm essa mesma facilidade, e isto ocorre com muita frequência, pois o artista, geralmente está mergulhado em sua produção e não tem como expô-la, sem que alguém o ajude, e que na realidade funciona como a metade da importância para que sua obra seja considerada como obra e não objeto de ateliê.

Ainda no papel do artista, este profissional, tem, desta forma, latente sua sensibilidade, o que é de suma importância tanto para a compreensão ao analisar e selecionar trabalhos de outros artistas, como para saber de suas dúvidas e anseios.

Outra função a ser exercida é a de Produtor Cultural. Neste caso o profissional é responsável pela busca do melhor local de exposição, tendo por base vários aspectos, entre eles, e um dos mais importantes, o financeiro.

A função de Curador também é de grande importância, pois será esta função ou este profissional, que fará a organização das obras, disposição das mesmas, entre diversas outras importantes atividades.

O galerisa ou marchand, entra neste rol de importantes funções na fase de venda das obras na feira de artes escolhida pelo Promotor Cultural e pelo Curador.

Desta forma, estas várias funções se intercambiam, ainda com outras que surgem do decorrer do processo de montagem de uma exposição ou espaço expositivo, como é o caso do profissional que é contratado simplesmente para montar e afixar as obras nas paredes, comumente contratado por galerias.

 

Na Pele do Produtor Cultural

A função deste profissional é a de buscar o melhor local para expor tanto suas obras, como as obras de seus artistas.

Esta escolha precisa se basear na localização, importância do evento, como é o caso de uma Feira de Artes, por exemplo, a distância, logística tanto de locomoção dos artistas, sua, bem como das obras.

Quando se trata de um evento fora de seu país, é importante pensar nas facilidades de locomoção tanto as obras como nas facilidades para os artistas. A cidade onde ocorrerá o evento também é importante, pois isto pode determinar um interesse maior ou menor por parte de seus artistas. Contudo, caso o local de exposição seja importante, embora não muito conhecido por parte de seus artistas, vale explicar a eles os motivos pelos quais a escolha daquela cidade é importante para a divulgação de suas obras.

Uma vez feita a escolha, este profissional deve acionar o curador, que fará a idealização do espaço a ser escolhido, no que diz respeito ao tamanho do local de exposição, tendo por base a verba destinada para tanto, a localização dentro do espaço da feira.

Neste caso de feira, especificamente, a localização do stand também é muito importante, pois pode representar uma visitação em grandes proporções, como não, pois se o espaço não for bem escolhido e acabar por se localizar numa área de difícil acesso, as chances de muitas pessoas desviarem do local é grande. Ao passo que se o stand estiver num local estratégico, como por exemplo uma esquina, ou numa via importante de acesso do parque de exposições, obrigatoriamente as pessoas terão que passar por seu stand, aumentando as visualizações das obras expostas.

É certo que esta escolha também esbarra no orçamento, pois dependendo do tamanho e localização, os custos podem aumentar e este profissional terá que “discutir” estes termos com o Produtor, procurando analisar se o mais viável seria aumentar o espaço ou deixa-lo menor, mas numa via de bastante acesso.

De certo que são detalhes importantes que impactam do desenrolar da exposição.

Nesta fase, o profissional atua comercialmente, procurando seus clientes, mas sempre se baseando em seus conhecimentos com as outras áreas em que atua, bem como na linha curatorial proposta pelo curador.

Após findo o prazo de garimpagem – pois há que se realizar outras tarefas – e alguns meses antes do evento, o Promotor Cultural deve parar com a pesquisa dos artistas e passar para outras atividades.

Portanto, encerrada esta fase, o Promotor Cultural deve incorporar a função de Curador.

 

Na pele do Curador

Cristina Tejo em seu texto, intitulado “Não se nasce curador, torna-se curador”, publicado no livro Sobre o ofício do curador, de textos organizados por Alexandre Dias Ramos, ao mencionar as palavras da curadora checa Maria Hlavajova, que costumava ver a palavra ‘curador’ sublinhada automaticamente, a cada vez que a digitava no programa Word, diz que

 

“ O texto, publicado em 2001, apreende um momento de transição que antecede a um boom mundial de visibilidade e de solidificação do papel do curador. No programa Word Vista, versão 2010, as palavras curador ou curadoria não são mais um ruído na normalidade. Aliás, a figura do curador se disseminou de tal forma que atualmente qualquer evento cultural, seja um festival de teatro, dança ou cinema, tem à sua frente um curador, mesmo em regiões remotas. O site Artvista (www.artvista.de) afirma que, apenas no campo das artes visuais, o ano de 2008 agregou 172 eventos, entre feiras de arte, bienais e trienais. Apesar de não constar nos dados, sabe-se que a esmagadora maioria conta com a participação ou orquestração de curadores.” (RAMOS, 2010, p.p. 149,150)

Como se pode ver pelo texto acima, poderíamos a partir de agora, incluir mais uma atividade ou qualidade à profissão do Curador, qual seja de ‘maestro’, o que corrobora ainda mais com a ideia de exposição como obra de arte autônoma.

Ainda neste mesmo diapasão, Cauê Alves em seu texto “ A curadoria como historicidade viva”, no mesmo livro acima citado, diz o que segue:

[…]“Circuito.

O curador de arte, ao pé da letra, seria aquele que está incumbido de cuidar, zelar e defender os interesses do artista e dos trabalhos de arte. O curador, como se sabe, é o profissional que organiza, supervisiona ou dirige exposições, seja em museus ou nas ruas, em espaços culturais ou galerias comerciais. Essa função tem sido desempenhada em caráter temporário por artistas , críticos, jornalistas, professores, historiadores, galeristas ou, de modo mais sistemático, por profissionais especializados em curadoria. Apesar de o curador ser um técnico cuja profissão tem especificidades como todas as outras, os cursos formais na área são recentes. Trara-se de um cargo interdisciplinar que envolve noções conceituais, reflexão, tomadas de partido, arquitetura, produção, montagem de exposição, design de interiores e gráfico, contabilidade, iluminação, conservação, setor educativo, editoração e publicação.[…]” (RAMOS, 2010, p.p. 43,44)

Assumindo esta tarefa, o Curador deve encontrar, dentre os trabalhos dos artistas participantes, aqueles que se encaixem em sua linha curatorial.

No que diz respeito à Linha Curatorial, propriamente dita, e tendo-se em vista se tratar de uma exposição numa feira internacional de artes, a linha curatorial é muito simples, pois a preocupação é levar arte brasileira a outros países, procurando mostrar que todos falamos a mesma língua (i.e., artes) e que não devemos ser descriminados por pertencermos a América do Sul, e que por vezes não somos vistos como Ocidentais, nem como Orientais.

Portanto, no presente caso a linha curatorial é bem ampla e a escolha, depois da qualidade, acaba sendo mais voltada para as formas de expressão artística, quais sejam; pintura, gravura, fotografia e escultura.

Performance também é bem-vinda, mas não muito utilizada neste formato de exposição.

Desta forma, nesta fase, após o agrupamento dos artistas, o profissional deve escolher uma quantidade pequena de obras de cada artista para compor seu espaço. Nesta fase, todos os artistas deverão já ter suas obras prontas para que o curador possa realizar seu trabalho.

Assim que todas as obras foram devidamente escolhidas e suas imagens agrupadas na maquete, o profissional passa para a parte prática de elaborar o formato das fichas técnicas e texto de parede, cujas imagens também devem compor a maquete para fins de melhor disposição do grupo de obras.

A próxima etapa é a da divulgação do evento relacionando todos os artistas envolvidos e convidando o público ao evento. Esta divulgação, hoje em dia, é muito realizada através de redes sociais, que ainda oferecem anúncios pagos e por tempo determinado.

A forma de divulgação, que também envolve o layout do anúncio e os veículos a serem escolhidos, precisa se basear no orçamento proposto pelo Promotor Cultural e o mesmo pode ser feito tanto em formato impresso, como digital

A divulgação dos artistas é importante tanto para divulgação do próprio espaço expositivo, como para os artistas. E esta divulgação deve ser feita com imagens das obras com suas respectivas fichas técnicas, junto com uma pequena biografia de cada artista, feita em, no mínimo dois idiomas, seno Inglês e o idioma do local da exposição. A esta biografia deve estar anexada o rol de exposições a que cada artista tenha participado desde então. Isto configurará um grau de respeito tanto ao visitante, como aos outros artistas participantes.

Todas essas informações podem ser tanto impressas como em formato digital, e caso seja oferecido um site do Promotor Artístico, ainda melhor, pois é o veículo que usualmente as pessoas utilizam, como é o caso do presente link (http://renatomoraes.com.br/en/renato-moraes-2/ ).

Um modelo informativo de divulgação de artista está anexado as páginas das imagens em anexo (Pág. 22).

No que diz respeito à efetiva montagem do stand, o curador deverá respeitar, na medida do possível o idealizado na maquete para que não haja problemas e não se perca tempo.

Ajustes finos devem ocorrer neste momento até que a montagem esteja concluída.

Praticamente ausente, é a presença do texto de parede nestes tipos de evento. Contudo é importante para melhor receber os convidados e interessados nas obras expostas.

A ficha técnica bem elaborada e apresentada também é muito importante para explicar aos visitantes, do que a respectiva obra se trata.

Independentemente de se tratar de uma exposição numa feira de artes, estes dois itens acima expostos, quando presentes num espaço expositivo demonstra profissionalismo.

O trabalho do curador aproxima-se do trabalho do artista, quando o segundo é realizado pela mesma pessoa, pois, este segundo profissional pode compreender os anseios e dúvidas e claramente esclarece o primeiro.

Novamente, utilizando-se de passagem de livro da mesma autora, Sonia Salcedo Del Castillo, em seu livro A Arte de Expor Curador como expoesis, diz que:

“Hoje, são vários os exemplos de artistas com essa multiplicidade profissional. Além de Basbaum, destacamos, como Monachesi em seu texto, a atuação híbrida de Armando Mattos no circuito expositivo brasileiro.” (CASTILLO, 2014, p. 44)

Neste caso ocorre como se fossem várias pessoas ou até uma equipe de uma só pessoa, mas com diversas funções diferentes, literalmente. Isto é melhor compreendido quando se vê stands em feiras de arte, realizado por pessoas não artistas ou que não tenham estudado artes ou as funções de curadoria e somente pensam no lucro que podem ter. Quando o há.

É comum ver colunas de telas puramente para ganhar espaço e dinheiro. O prestígio de um trabalho bem feito não é observado por este agente – que não cabe usar a denominação de curador, pelas razões aqui expostas – muitas vezes nem pelo artista, e somente é visto por quem estuda o ofício e pode fazer uma crítica bem estruturada.

Respeito aos artistas é muito importante. No momento em que o artista foi contatado e sua obra escolhida, sua exposição deve ser respeitada e seu espaço na parede também deve ser respeitado. Nele deve figurar a obra do artista e sua respectiva ficha técnica. Somente em alguns casos é permitido que mais de uma obra seja exposta. Neste caso, devem ser do mesmo artista e de tamanhos que não configurem um simples agrupamento de obras, juntos de suas respectivas fichas técnicas.

Um Curador bem informado representa um divisor de águas entre aqueles (citados no parágrafo acima) e aquele profissional que procura se munir de conhecimentos.

É de enorme relevância, ressaltar trecho do livro Conversas com Curadores e Críticos de Arte, de Renato Rezende e Guilherme Bueno, e, para enfatizar o acima exposto, a conversa entre Guilherme Bueno e Marcelo Campos, como segue:

“Comecei minha trajetória de curadoria e crítica através da pesquisa e da escrita de textos mais acadêmicos. Eu cursava Belas Artes e Comunicação Social ao mesmo tempo, fazia pintura na Escola de Belas Artes da UFRJ e comunicação da Faculdade Hélio Alonso. A partir de um momento tive que fazer estágio o larguei a pintura. Só fui voltar depois, já pensando em fazer o mestrado em artes visuais. Na comunicação, fiz meu projeto final sobre o artista Carybé, estudando identidade nacional e o modernismo brasileiro. A graduação em comunicação me deu uma amplitude teórica em filosofia, sociologia, antropologia e teoria da comunicação que eu não tive na EBA. Por outro lado, foi muito importante aprender a exercitar a criatividade, aprender a mexer com cor, aprender a história da arte e as práticas de atelier, aliás, o atelier é um outro mundo, e acho que foram as visitas aos atelieres dos artistas que me puxaram para a curadoria e para a crítica.” (REZENDE, 2013, p. 39)

Não que a prática de longos anos não possa munir o profissional de excelentes qualidades para que o torne um profissional gabaritado, mas nos dias de hoje, ao menos, estudar tudo o que envolve a profissão que escolheu é de uma importância ímpar. E isto não significa que uma vez lido ou estudado já qualifique o profissional. Atualizações constantes também são de enorme relevância, assim como em qualquer profissão.

 

Na Pele do Artista

Neste caso, o primeiro passo é escolher suas obras a serem expostas, tendo por base a linha curatorial determinada pelo Curador, a quantidade de obras a serem expostas, bem como o tamanho das mesmas e a linguagem a ser escolhida, no caso de o artista transitar em diferentes linguagens. Uma escolha pessoas e intransferível.

 

Novamente na Pele Produtor Cultural

Novamente na função de Promotor Cultural reunido sob o guarda-chuvas do Curador, o profissional reassume esta tarefa, pois deverá representar seus artistas / clientes da melhor forma, explicando os processos artísticos de cada qual e caso seja necessário, no idioma que melhor oferecer as informações necessárias.

Um portfólio impresso ou digital é muito bem-vindo, pois nele, se consegue ressaltar as imagens e dados de cada artista.

Na Pele do Galerista / Marchand

Com o intuito de ilustrar esta função é interessante transcrever alguns trechos do livro Arte Contemporânea, de Anne Cauquelin, sobre Leo Castelli, como segue:

“É a pedra angular do sucesso. Manter-se informado sobre o que se passa no meio da arte, não somente nos Estados Unidos mas também na Europa. Castelli fala seis idiomas, matem contatos com museus europeus, marchands e colecionadores dos Estados Unidos e do Canadá. Esses contatos só se tornam possíveis porque, em vez de fazer concorrência(que é uma das leis do regime de consumo), firma acordos. Seus assistentes e ele mesmo exploram os ateliês.” (CAUQUELIN, 2005, p. 121)

E segue ainda a ilustre escritora:

Manter-se informado é, por um lado, ver os artistas, mas é também se documentar e documentar todo comprador eventual….”

“…Contudo, essas informações, para serem levadas em conta, necessitam não somente de entendimento entre galeristas mas também de certo consenso. Os críticos de arte, os conservadores dos grandes museus, a imprensa de arte formam um conjunto do qual depende a validação das obras e dos movimentos

É importante obter o consenso para promover um novo artista….” (CAUQUELIN, 2005, p. 122)

Com o exposto acima pode-se abstrair alguns pontos muito interessantes da profissão de galerista ou marchand, quais sejam: informação, técnica de marketing e venda, além de contatos e bons produtos, ou obras de arte interessantes.

No que diz respeito à informação, este item tanto significa a informação que o profissional deve ter em relação ao que está oferecendo, como informação em termos gerais. Ele deve ter conhecimento de outros idiomas, nos casos de trabalhar em outros países, pois num evento internacional, o provável comprador não terá paciência para mímicas ou tradutores, pois até estes devem ter conhecimento em artes, o que dificulta ainda mais todo o trabalho.

O profissional deve conhecer um pouco de arte para não ser pego de surpresa e para saber o que está oferecendo ao público, entre outros motivos.

No tocante à técnica de marketing e venda, o profissional deve saber como melhor explorar a imagem de seus artistas para que sejam reconhecidos tanto pela sua obra, como pessoalmente.

Saber vender a obra é ponto fundamental na comercialização dos trabalhos de seus artistas, e este item significará o sucesso de um artista, pois este profissional tem a obrigação de incentivar o colecionador a adquirir determinada obra.

Bons e importantes contatos são extremamente valiosos na profissão de marchand ou galerista e saber como circular as obras entre seus contatos também terá um enorme valor comercial, tanto para ele, como, principalmente para seu artista.

Hoje, são vários os exemplos de artistas com essas diversas atribuições, como citado por exemplo por Sonia Salcedo Del Castillo, em Arte de expor, curadoria como expoesis, quando ela própria transcreve, por sua vez, pensamento da artista Maria Tomaselli, como segue:

“A relação entre curador e artista está em pauta e há mais de duas décadas vem conduzindo reflexões nas diversas esferas da arte. Mediante a curadoria, confere-se coesão à multiplicidade. Contudo, artistas desejosos por serem decifrados (muitas vezes não o são), reagem ao impasse da perda (ou dissolução) da singularidade pela inserção no coletivo. Indagando-se a esse respeito, Maria Tomaselli (Curador artista-curador, 2005) observa que os próprios artistas passam a mediar suas obras, quer seja escrevendo para se explicarem, quer seja juntado-se a colegas visando ao esforço mútuo. Conforme a artista,

“[…] assim surge a figura do artista-curador, o artista que procura enxergar as conexões entre várias produções. Vai agir do mesmo jeito que o curador. O artista vem da prática e procura uma teoria que possa englobá-lo pelo menos numa parte da produção atual, que tem afinidade com ele. É uma nova forma de agrupamento. Até para fazer uma exposição individual vale essa preocupação. No próprio release que vai para a divulgação, o artista procura um texto medidor. O curador, seja ele curador-artista ou artista-curador, é a procura da junção dos fragmentos soltos da pós-modernidade. O curador de grandes eventos procura um sentido no caos da produção artística (http://to.plugin.com.br).” (CASTILLO, 2014, p. 42)

Na mesma obra a autora cita outra profissional; Juliana Monachesi, que em sua própria obra discursa acerca das novas práticas e papéis na arte, utilizando expressão de Ricardo Basbaum, como segue:

“[…] a pluralidade de papéis sociais desempenhada por um artista nos dias atuais. Artistas gerem espaços expositivos, escrevem textos a respeito do próprio trabalho ou de outros artistas, organizam curadorias, entre outras atividades. (http://netart.incubadora.fapesp.br/portal/ Members/julmonachesi/critica/armandomattos). (CASTILLO, 2014, p.p. 43,44)

Novamente na pele do Curador

Tendo-se em mente que se trata de uma exposição numa feira de artes fora de seu país, e com o orçamento reduzido, não é muito comum o Curador ter o auxílio de um profissional de montagem e desmontagem de stand.

Desta forma, munido de conhecimentos de conservação de obras, assim como também mencionado por Cauê Alves em seu texto acima transcrito às páginas 43, o Curador deve assumir esta função, para que todas as obras expostas sejam devidamente acondicionadas em plásticos e caixas, de modo que possam ser transportadas sem quaisquer riscos.

 

Importantes aspectos da interligação das diferentes funções

Apenas como detalhe, os tópicos abaixo não serão separados por um “x”, simplesmente porque não são concorrentes, e sim complementares.

 

Artista – Curador

Acima fora dito que o trabalho do curador aproxima-se do trabalho do artista, quando o segundo é realizado pela mesma pessoa, pois, este segundo profissional pode compreender os anseios e dúvidas e claramente esclarece o primeiro.

Contudo, além disto, existe uma clara aproximação entre estas duas funções, qual seja a de que o trabalho do curador também deve ser visto como um trabalho artístico, pois após montada a exposição esta acaba sendo uma Instalação, propriamente dita, que apesar de poder ser desmembrada na ocasião da venda de algumas obras de arte – neste caso vista como suas peças – não deixa de representar um trabalho artístico.

Com o intuito de ilustrar o acima exposto, é importante transcrever alguns trechos do livro Cenário da Arquitetura da Arte, de Sonia Salcedo Del Castillo, quando menciona o movimento austríaco conhecido por Secessão Austríaca, como seguem:

“Nas montagens, a estratégia adotada para obtenção de um todo único e coeso era, geralmente, centralizar uma obra em contraponto às demais. Na Secessão de 1902, por exemplo, foi instalada, no centro do pavilhão, a obra de Klinger intitulada Beethoven. Não se tratava apenas de uma obra ou de um artista privilegiado especialmente, mas, acima de tudo, de uma ideia, de uma imagem, do pilar estrutural de toda a montagem,para onde tudo convergia: o título, o espaço e as demais obras. A obra de Klinger atraía não só o público, mas o todo da mostra, conferindo-lhe unidade, como se ocorresse, por seu intermédio, um entrelaçamento de artes, cores e ritmos de estrutura.Como sugere Ekkerhard Mai, ao descrever sobre essa mostra, era como se tudo se revelasse sob um senso global de totalidade, para onde todas as partes deveriam convergir: como se o tema, os meios e as matérias de montagem, o catálogo e o vernissage somassem forças para a consagração da criação”…. (CASTILLO, 2008, p. 45)

E ainda segue dizendo o seguinte:

“Fazendo uma analogia, o sentido de unidade pretendido pela Secessão – onde Beethoven exerce o papel de elisão – pode ser comparado ao mesmo sentido que move algumas curadorias nos dias de hoje. Os temas curatoriais, assim como Beethoven, buscando a unidade visual, conciliam toda a lógica expositiva, impulsionando a sintaxe espacial de diferentes expressões artísticas, principalmente nas megaexposições.” (CASTILLO, 2008, p. 45)

E, ainda para finalizar este tema da relação da curadoria como um ato artístico, cumpre transcrever mais um pequeno trecho do Arte de Expor, curadoria como expoesis, também de Del Castillo, como segue:

“Considerando as fronteiras das artes fluidas, sendo, pois, sem sentido pensá-las separadamente, aventamos: a poética expositiva contemporânea pertence à ordem do ato criativo, como um objeto estético resultante do exercício curatorial à maneira da poesia. Nossa hipótese diz: há uma poética expositiva que se constitui obra.” (CASTILLO, 2014, p. 17)

Curador – Promotor

O curador também pode fazer a função de Promotor Cultural, principalmente quando exercido pela própria pessoa, pois a linha que os distingue é muito tênue.

Um depende do outro na medida em que, para que o Curador possa iniciar sua instalação (assim como apregoado acima), este precisa ter seus parâmetros estabelecidos pelo Promotor que irá determinar, de acordo com as condições financeiras, como o espaço na feira – como é o presente caso – será escolhido, no que diz respeito ao tamanho e localização.

O Curador, munido de seus conhecimentos, também pode oferecer sugestões de locais expositivos de relevância para que o Promotor entre em contato e contrate o respectivo espaço.

 

Promotor – Galerista/Marchand

Novamente, a inter-relação entre estas duas funções é muito tênue, no sentido em que o primeiro tem a obrigação de estar munido de uma extensa rede de contatos, saber como lidar com estes contatos, saber onde expor, baseado também na localização e proximidade de seus contatos, bem como ser conhecedor de excelentes técnicas de venda e negociação, características comumente ausentes na maioria dos artistas.

 

Galerista/Marchand – Artista

Como exposto por Anne Cauquelin em seu livro Arte Contemporânea:

“O artista se isola de um sistema que lhe garantia a segurança, tornando-se uma figura marginal. Submetido às flutuações do mercado – devidas em boa parte à concorrência, ao número crescente de artistas – ele se aflige por sua sobrevivência e se coloca na dependência de marchands e críticos. Mas “marginal” nem por isso quer dizer “solitário”; ele faz parte de um grupo que é sua salvaguarda…

…Voluntária ou não, a exibição do artista como anti, fora ou além das regras do mercado de consume é tida como certa. Tática vitoriosa uma vez que, se já não se trata mais do estudante pobre em seu casebre, que frequenta tabernas com os amigos e arruína sua saúde e família – imagem herdada do século XIX romântico -, Mem por isso a imagem que o público faz do artista é muito diferente desta historieta, Na verdade, esse público recusa a ideia de qualquer enriquecimento do artista, apegando-se à arte desinteressada, à criação “livre”, oriunda do sofrimento, pronto a se tornar cego aos lucros muito reais e acusando sobretudo os intermediários de explorar o produtor, o artista. Vicent Van Gogh, o maldito, o exilado da sociedade, estabelece o paradigma, obtendo todas as aprovações.” (CAUQUELIN, 2005, p. 46)

Tendo o acima exposto, cumpre ressaltar que, embora muito já se evoluiu, realmente, os artistas que têm o objetivo de serem considerados como profissionais de respeito não mais assumem aquela figura do período romântico, que tem Van Gogh como expoente de artista exilado vivendo como um pobre mendigo, entretanto, ainda não atuam como marchands de si próprios.

Portanto, quando o profissional artista consegue ter esta visão multifacetada, pode fazer todas as interrelações que circulam sua profissão e produção.

Neste caso, a relação entre essas duas funções se dá na medida em que o segundo, munido de conhecimentos relativos à sua produção, e contanto, certamente, que este artista seja este profissional multidisciplinar, melhor poderá escolher o mercado para sua arte, por vezes auxiliando o Marchand/Galerista para onde direcionar o resultado de sua produção, e este, por sua vez, acionará seus contatos e sua técnica de persuasão e venda.

Questões sobre a Precificação das Obras de Arte em Feiras Internacionais de Arte

No que diz respeito à precificação de obras de arte em feiras internacionais de arte é importante ter em mente alguns aspectos.

Em primeiro lugar, um artista brasileiro, embora tenha um mercado estabelecido no Brasil, será, muito provavelmente, um desconhecido no país onde terá exposto suas obras, mesmo que em seu curriculum esteja repleto de exposições, salões, entre outros eventos.

Desta forma, cautela na precificação de suas obras será uma atitude inteligente.

O artista, muito embora tenha uma apresentação de sua obra de enorme qualidade e até melhor do que um artista local, ainda assim concorre em enorme desvantagem com aquele, pois um francês, por exemplo, irá buscar, sempre, em primeiro lugar, um artista francês, pois com este ele terá uma conexão melhor e poderá ter uma obra de arte que seu circulo social possa facilmente reconhecer, ao passo que na escolha de um estrangeiro isto dificilmente ocorrerá.

Para que o artista brasileiro possa concorrer em pé de igualdade, mesmo que distante, o valor a ser atribuído a suas obras deve estar ligeiramente abaixo daquelas próximas feitas por artistas locais. Desta forma, o item custo não representará uma barreira na escolha de sua obra.

Numa feira como a do Carrousel du Louvre, por exemplo, vários são os valores oferecidos, independentemente do tamanho e técnica, mas tendo-se em vista que é importante procurar facilitar a aquisição das obras, seria importante explicar aos artistas participantes que escolham obras que possam atribuir valores razoáveis e de fácil aquisição.

Um exemplo, é a atribuição de valores entre 600 a 1,200 Euros, o que neste segundo caso serve como um chamativo, pois caso o interessado não tenha como gastar 1,200 Euros por uma obra daquele artista, mas este mesmo apresenta uma outra obra num valor um pouco menor, incentiva o interessado a adquirir num primeiro momento aquela de menor valor, para, posteriormente, poder se aventurar a adquirir outra de maior valor.

A precificação é um tema muito subjetivo, como mencionado por Cildo Meireles em entrevista a Angélica Moraes, na obra O Valor da obra de arte, em que diz:

“Qual o valor da arte?

“Em 1969, fiz a obra A árvore do dinheiro, com 100 notas de 1 cruzeiro, e o preço do trabalho era 2.000 cruzeiros. Penso que isso resume bem a questão. Existe uma discrepância entre valor de troca e valor de uso, entre valor real e valor simbólico, entre significante e significado. O preço estipulado para essa obra era vinte vezes maior do que o valor das notas de dinheiro utilizadas para fazê-lo.” (MORAES, 2014, p. 133)

Este trecho aborda ainda outro item a ser calculado na precificação das obras de arte; custo. Certamente deve-se calcular uma margem de lucro, significativa em relação ao custo de realização de uma específica obra de arte. Contudo, esse cálculo deve ser muito ponderado e diversos fatores devem ser levados em consideração, tal como o tempo que o respectivo artista tem suas obras ofertadas no mercado, adicionado a isto, deve-se fazer uma comparação do preço sugerido com artistas com trabalhos semelhantes.

Outros detalhes também devem ser levados em consideração, como por exemplo a quantidade de exposições que o artista tem, em comparação a seus pares, assim como diz Ana Letícia Fialho em Expansão do mercado de arte no Brasil: oportunidades e desafios, parte da obra O Valor da obra de arte:

“[…] O reconhecimento do valor do artista pelo sistema das artes depende também do capital simbólico de todas as instâncias envolvidas na validação: da reputação das instituições inde o artista expõe, dos curadores com quem trabalha, dos críticos e dos veículos que publicam a seu respeito, dos prêmios e residências de que participa, dos colecionadores que nele investem e das galerias que o representam. […].” (MORAES, 2014, p. 56)

E segue dizendo:

“[…]Não existe fórmula para a definição do preço quando o artista entre no mercado pela primeira vez, embora alguns critérios sejam comumente apontados pelas galerias: considera-se o currículo do artista (reconhecimento institucional e da crítica, prêmios, publicações) e comparam-se preços com precursores e linguagens semelhantes em outras galerias. Uma vez que o artista já está no mercado, os resultados de vendas precedentes também passam a compor essa equação. Assim como a demanda e a espiral de reconhecimento acima referida. Tais critérios apontam para uma dupla regulação, de um lado do próprio mercado e de outro das demais instâncias do sistema […].” (MORAES, 2014, p. 57)

Portanto cautela deve ser a palavra de ordem na estipulação do valor a ser dado à obra de arte.

 

Considerações Finais:

 

Multidisciplinaridade do artista empreendedor. Vários são os exemplos de artistas que se aventuraram a realizar exposições próprias ou de outros artistas, seja pela discordância com o sistema de artes vigente, como foi o caso de Corot, ou mais recentemente na história da arte, com Donald Judd, quando nos anos 80 transformou um antigo forte militar na Fondation Chinati, em Mafra, no estado do Texas, num centro permanente de exposição de seus trabalhos e de outros artistas (FERREIRA, 2006, p. 97).

Portanto, as atividades concomitantes, como se pode ver pelos exemplos dados por estudiosos no assunto, bem como curadores citados, não resulta em falta de ética, mas ao contrário, significa um trabalho também em prol de outros artistas que, na maior parte das vezes, são carentes de profissionais que os possam ajudar e, acima de tudo, os entender, por falar o mesmo idioma; artístico.

Neste percurso, este artista multidisciplinar poderá oferecer auxílio em todas as fases do processo de exposição, inclusive estabelecer um valor que possa ser atribuído a uma obra a ser exposta.

 

Bibliografia:

 

CASTILLO, Sonia Salcedo del. Arte de expor – curadoria como expoesis. 1.ed. Rio de Janeiro : Nae Ed., 2014. 224 p. : Il.; 28 cm.

CASTILLO, Sonia Salcedo del. Cenário da arquitetura da arte: montagens e espaços de exposições. São Paulo: Martins, 2008. 347 p., il., 16 cm. (Coleção Todas as Artes).

CAUQUELIN, Anne. Arte contemporânea: uma introdução. Tradução de Rejane Janowitzer. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 168 p., 20 cm. (Coleção Todas as Artes).

FERREIRA, Glória; COTRIM, Cecília. Escritos de artistas: anos 60/70. Tradução Pedro Süssekid et al. – Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

GONÇALVES, Lisbeth Rebollo. Entre cenografias. O museu e a exposição de arte no século XX. – São Paulo : Editora da Universidade de São Paulo/Fapesp, 2004. 168 p.; 18 x 25 cm.

QUENIN, Alain; FIALHO, Ana L.; MORAES, Angelica de. São Paulo : Metalivros, 2014.. O valor da obra de arte

RAMOS, Alexandre Dias (Org.) et al. Sobre o ofício do curador. Porto Alegre: Zouk, 2010. v. 2 . 176 p., il., 23,5 cm. (Arte: ensaios e documentos). ISBN 978-85-88840-96-6.

REZENDE, Renato; BUENO,Guilherme. Conversas com curadores e críticos de arte. 2. ed. – Rio de Janeiro: – editora Circuito, Lamparina, 2013.